Nos artigos anteriores, nós conversamos sobre como o nosso corpo busca o equilíbrio constante (a homeostase) [20] e vimos que nós fabricamos a nossa própria “cannabis interna”, a Anandamida [2208]. Mas você já parou para se perguntar como essas moléculas conseguem conversar com as nossas células? Como é que o organismo sabe exatamente a hora de aliviar uma dor, acalmar a ansiedade ou induzir o sono? O segredo por trás dessa comunicação cirúrgica está em duas estruturas fascinantes: os receptores CB1 e CB2 [161].

Para entender como eles funcionam, eu gosto de usar uma metáfora muito simples que usamos na medicina: o mecanismo de chave e fechadura [161].
Imagine que as células dos seus órgãos e do seu sistema nervoso possuem pequenas fechaduras digitais na superfície. Essas fechaduras são os receptores canabinoides. Elas ficam ali, esperando pacientemente a chave certa aparecer para abrir uma porta e disparar uma ordem no corpo. Se a chave certa não entrar, nada acontece.
A grande revelação da ciência moderna é que o corpo humano possui uma quantidade massiva dessas fechaduras espalhadas da cabeça aos pés [91, 2224]. E elas são divididas em dois tipos principais, cada uma com um papel muito bem definido:
A Fechadura CB1: O Painel de Controle do Cérebro
O receptor CB1 foi clonado em 1990 [2204] e é, simplesmente, um dos receptores mais abundantes de todo o sistema nervoso central dos mamíferos [2224]. Pense no CB1 como o painel de controle emocional e sensorial do seu cérebro.
Ele está concentrado em regiões que gerenciam funções críticas do seu dia a dia [2228]. Quando a chave certa ativa o receptor CB1, o corpo recebe ordens para:
- Modular a intensidade da dor crônica (reduzindo a sensibilização) [342].
- Acalmar os circuitos da ansiedade e desacelerar os pensamentos [63].
- Regular o relógio biológico que comanda o seu sono [49-52].
- Controlar o apetite e a memória de curto prazo [2228].
A Fechadura CB2: O Escudo do Sistema Imunológico
Identificado logo depois, em 1993 [2207], o receptor CB2 funciona de um jeito completamente diferente. Enquanto o CB1 cuida da mente e dos comandos centrais, o CB2 está distribuído principalmente no nosso sistema imunológico, nas células de defesa e nos órgãos periféricos [2304].
O CB2 é uma fechadura que é ativada “sob demanda”, funcionando como um verdadeiro escudo contra a inflamação e a destruição de tecidos [2310]. Quando ativamos os receptores CB2, nós conseguimos:
- Frear processos inflamatórios severos nas articulações, músculos e intestino [21, 161].
- Acelerar a recuperação de tecidos lesionados [2310].
- Regular a resposta imune para que o corpo não ataque a si mesmo [2304].
E por que a Cannabis funciona tão bem nesse sistema?
A cannabis medicinal funciona porque a natureza criou na planta moléculas (os fitocanabinoides, como o THC e o CBD) que possuem o formato tridimensional quase idêntico ao das chaves que o nosso próprio corpo produz [33, 48].
Quando o paciente faz uso do óleo ou de outra apresentação prescrita, essas moléculas externas (Exo) viajam pela corrente sanguínea e encontram as fechaduras (Endo) que já estavam lá, esperando por elas desde que você nasceu [6, 12, 13, 80]. O THC, por exemplo, encaixa-se com perfeição cirúrgica no receptor CB1 para desligar a dor crônica [49, 1247]. O CBD atua modificando a estrutura da fechadura para que o seu sistema funcione de forma mais fluida e protegida [21, 65].
Entender os receptores CB1 e CB2 é perceber que a medicina canabinoide não força o seu corpo a fazer algo contra a própria natureza. Ela apenas utiliza as portas e caminhos que a sua própria biologia estruturou ao longo da evolução para devolver o equilíbrio que a rotina e a doença tentaram quebrar [20, 211].

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