Se você acompanhou os nossos artigos anteriores, já descobriu dois segredos fascinantes: o primeiro é que o seu corpo possui uma rede de fechaduras biológicas chamada Sistema Endocanabinoide [161]; o segundo é que o seu próprio cérebro fabrica chaves naturais, como a Anandamida, para abrir essas fechaduras e manter a sua saúde em perfeito equilíbrio [2208]. Mas uma dúvida muito comum que recebo no consultório é: “Doutor, se nós já produzimos os nossos próprios canabinoides, por que algumas pessoas precisam usar o óleo extraído da planta cannabis?”

A resposta para isso revela um dos episódios mais bonitos da evolução e da bioquímica: a forma como o reino vegetal consegue mimetizar, de maneira quase idêntica, a nossa própria biologia interna [5, 8].
Para entender essa dinâmica, a medicina divide essas “chaves químicas” em dois grupos principais baseados na sua origem. Vamos entender quem é quem nessa engrenagem:
Os Endocanabinoides: As Chaves de Dentro
O prefixo “Endo” vem do grego e significa interno ou de dentro. Portanto, os endocanabinoides são as moléculas que o seu próprio corpo produz [161]. As duas principais chaves que fabricamos são a Anandamida e o 2-AG [2208, 2210].
Elas são produzidas pelo seu sistema nervoso central e pelas suas células de defesa sob demanda [161, 2347]. Ou seja, quando você passa por um momento de muita dor, estresse ou inflamação, o seu corpo corre para fabricar essas chaves internas para tentar restabelecer a paz e o equilíbrio (a homeostase) [20].
Os Fitocanabinoides: As Chaves da Planta
O prefixo “Fito”, por sua vez, significa vegetal ou vindo das plantas. Logo, os fitocanabinoides são os compostos químicos encontrados na planta cannabis [33, 48]. A planta possui mais de 100 dessas chaves guardadas em suas estruturas glandulares chamadas tricomas [7, 35]. As duas mais famosas e estudadas pela ciência são o CBD (Canabidiol) e o THC (Tetrahidrocanabinol) [33, 48].
O Grande Segredo: A Planta Imita Você
Aqui está o ponto de virada: quando a ciência colocou a estrutura química da nossa Anandamida (interna) ao lado da estrutura do THC (da planta) sob o microscópio, os pesquisadores tomaram um susto. Elas são tridimensionalmente muito parecidas [33, 49].
Por causa dessa semelhança molecular geométrica, o THC consegue viajar pelo seu corpo, entrar no seu cérebro e se encaixar com perfeição cirúrgica nas mesmas fechaduras (os receptores CB1) que foram feitas para a sua Anandamida [49, 1247]. A planta, literalmente, fala o mesmo idioma químico que o seu corpo [80].
E por que nós precisamos desse reforço externo?
Imagine que o seu corpo está passando por uma crise severa — como uma fibromialgia, uma ansiedade generalizada crônica ou uma doença inflamatória intestinal [21, 161, 342]. Nesses cenários, o organismo entra em um estado de esgotamento. Ele tenta produzir endocanabinoides para apagar o incêndio, mas a demanda é muito maior do que a capacidade de produção. As suas chaves internas acabam [21].
Quando nós introduzimos os fitocanabinoides através de um tratamento médico personalizado, nós não estamos colocando uma substância sintética ou artificial para forçar o corpo a trabalhar [172]. Nós estamos oferecendo um “reforço de chaves” idênticas às que estão faltando [80].
- O THC da planta entra para ajudar a sua Anandamida a desligar a dor e relaxar os músculos [49, 1247].
- O CBD entra para dar suporte, impedindo que o seu corpo destruja a pouca Anandamida que sobrou, além de modular os receptores para que o tratamento seja focado puramente no alívio, sem efeitos colaterais indesejados [21, 65].
A medicina canabinoide é, em sua essência, uma terapia de reposição e modulação [172]. A natureza colocou na planta a chave exata para abrir as portas da cura que você já possui por dentro [5, 20].

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