Se eu lhe dissesse que, neste exato momento, o seu próprio cérebro está produzindo uma substância que imita perfeitamente os efeitos dos compostos da planta cannabis, você acreditaria? Para muitas pessoas que entram no meu consultório, essa informação soa como uma grande surpresa. Mas a verdade é que nós não somos apenas receptivos à medicina canabinoide; nós fomos biologicamente projetados para ela [6, 12]. E o maior exemplo dessa conexão natural é uma molécula fascinante que nós mesmos fabricamos: a Anandamida [2208].

Anandamida: A molécula da “felicidade” que o seu próprio corpo fabrica

Para entender o peso dessa descoberta, precisamos voltar a 1992, em Israel. O laboratório do renomado professor Raphael Mechoulam — o cientista que primeiro isolou os componentes da cannabis na década de 1960 — fez uma descoberta que abalou as estruturas da medicina [75, 2208]. Eles encontraram o primeiro canabinoide fabricado pelo corpo humano [2208].

Ao buscarem um nome para essa nova e poderosa molécula, os cientistas recorreram ao sânscrito, uma língua sagrada da Índia antiga. Eles escolheram a palavra Ananda, que significa “felicidade plena”, “êxtase” ou “paz interior” [2209]. Nascia ali a Anandamida: a nossa “cannabis interna” [2208].

A Anandamida é um neurotransmissor lipídico, uma chave química que o seu corpo produz “sob demanda” [161, 2347]. Isso significa que ela não fica estocada no organismo; o seu corpo a fabrica exatamente no momento em que você precisa recuperar o controle sobre o estresse, a dor ou a ansiedade [161, 2228].

Quando você faz uma atividade física prazerosa e sente aquela onda de bem-estar e relaxamento logo após o treino (um fenômeno conhecido como “barato do corredor”), a ciência hoje sabe que aquilo não é apenas efeito da endorfina, mas sim um pico de Anandamida inundando o seu sistema nervoso [2228]. Ela atua diretamente nos receptores do seu cérebro para:

  • Acalmar os pensamentos acelerados e reduzir a ansiedade [63].
  • Facilitar a consolidação da memória e ajudar o cérebro a esquecer traumas [2228].
  • Regular o apetite e a sensação de prazer [2228].
  • Funcionar como um freio natural para os sinais de dor crônica [340].
VEJA  O que é a Síndrome da Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide?

O grande problema é que, no ritmo de vida que levamos hoje, o nosso corpo entra em uma espécie de “falência de bem-estar”. O estresse crônico, a privação de sono e a inflamação constante fazem com que o organismo consuma a Anandamida muito mais rápido do que consegue produzi-la, além de acelerar a ação das enzimas que a destroem [21, 161].

Quando os seus níveis de Anandamida despencam, o seu “maestro” interno perde a voz [9, 20]. O resultado prático disso? Você começa a sentir dores que não passam, o seu humor oscila drasticamente, a ansiedade assume o controle e o seu sono desaparece [21, 342, 602]. Você entra em um estado de Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide [21].

É exatamente aqui que a medicina canabinoide revela o seu valor. Quando prescrevemos fitocanabinoides, como o CBD e o THC, nós estamos oferecendo ao seu corpo um “reforço externo” [172]. O THC, por exemplo, é quimicamente tão parecido com a nossa Anandamida que ele consegue se encaixar nas mesmas fechaduras (os receptores CB1), devolvendo ao organismo a capacidade de frear a dor e relaxar [33, 49, 1247]. Já o CBD atua impedindo que o seu corpo destrua a Anandamida que você ainda produz, fazendo com que a sua molécula da felicidade circule por mais tempo no seu sistema [21, 65].

Entender a Anandamida é compreender que o tratamento com cannabis medicinal não é sobre introduzir algo artificial ou agressivo no seu corpo. É sobre fornecer a matéria-prima exata que o seu organismo precisa para recuperar a paz, o equilíbrio e a felicidade biológica que a rotina lhe roubou [20, 172].


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